As duas doenças que mais levam à hemodiálise no Brasil — e que podem ser controladas com rastreio e acompanhamento especializado.
No Brasil, mais de 60% dos pacientes que iniciam hemodiálise têm como causa principal a hipertensão arterial ou o diabetes mellitus — ou a combinação das duas. Não é coincidência. É fisiologia.
Ambas as doenças danificam os rins de forma silenciosa, progressiva e irreversível. Por anos — às vezes décadas — os rins vão perdendo função enquanto o paciente se sente bem. Não há dor. Não há inchaço visível. Não há sinal de alerta.
Quando os sintomas aparecem — cansaço, inchaço nas pernas, falta de apetite, urina espumosa — o dano já é extenso. A janela de intervenção, que poderia ter durado anos, se fechou.
"Você pode ter pressão alta há 10 anos e seus rins estarem comprometidos sem que nenhum sintoma tenha aparecido."
— Dr. José Motta
60%
dos casos de hemodiálise são causados por hipertensão ou diabetes
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sintomas nos estágios iniciais — por isso o rastreio é essencial
Os rins são órgãos altamente vascularizados. Para filtrar o sangue, dependem de uma rede densa de pequenos vasos que precisam funcionar sob pressão controlada. Quando a pressão arterial fica elevada de forma crônica, esses vasos sofrem um estresse mecânico constante.
Com o tempo, as paredes dos vasos renais engrossam e perdem elasticidade — um processo chamado nefroesclerose. A irrigação dos glomérulos cai. A capacidade de filtração diminui. E o rim, tentando compensar, ativa mecanismos que aumentam ainda mais a pressão intrarrenal, acelerando o dano.
Esse ciclo pode durar 15, 20 anos. O paciente controla a pressão com o cardiologista, sente-se bem — mas ninguém monitorou o impacto que ela já causou nos rins. Quando a função renal é avaliada pela primeira vez, metade já se foi.
O que pode ser feito
Com rastreio renal regular — creatinina, TFG e proteinúria, pelo menos uma vez ao ano — é possível identificar o dano antes que seja extenso. Ajustar a classe de anti-hipertensivo, controlar a pressão com metas mais rigorosas e monitorar a evolução muda o prognóstico completamente.
Progressão da nefroesclerose
Pressão elevada cronicamente danifica a parede dos vasos renais
Espessamento e rigidez dos vasos reduzem o fluxo sanguíneo renal
Glomérulos perdem capacidade de filtração — a TFG começa a cair
O rim fibrotiza — o dano torna-se estrutural e irreversível
Tempo médio de progressão: 10 a 20 anos de hipertensão não monitorada do ponto de vista renal podem resultar em perda de 40 a 60% da função. Esse processo é silencioso em todas as fases — apenas exames laboratoriais detectam.
Fases da nefropatia diabética
Fase 1 — Hiperfiltração
Os glomérulos filtram em excesso. TFG aumentada. Sem sintomas. Detectável apenas em exames.
Fase 2 — Microalbuminúria
Pequena quantidade de proteína na urina. É o primeiro sinal detectável de dano glomerular — e o momento ideal para intervir.
Fase 3 — Macroproteinúria
Proteinúria franca. A TFG começa a cair. Pressão arterial tende a subir. A progressão se acelera.
Fase 4 — Insuficiência Renal
TFG significativamente reduzida. Sintomas tornam-se evidentes. Planejamento para terapia renal substitutiva.
O excesso crônico de glicose no sangue lesiona os glomérulos renais por uma série de mecanismos — inflamação, estresse oxidativo e alterações vasculares progressivas. Esse processo é chamado de nefropatia diabética, e é a principal causa isolada de hemodiálise no Brasil.
O dado mais importante: a nefropatia diabética tem uma janela de diagnóstico precoce que muitos médicos não aproveitam. A microalbuminúria — quantidades minúsculas de proteína na urina, detectáveis com um exame simples — aparece anos antes de qualquer queda significativa da função renal. Nessa fase, a doença ainda é reversível ou pode ser estabilizada com o tratamento correto.
Se o diabetes é diagnosticado mas o rastreio renal não é feito, essa janela se fecha — e o paciente entra no ciclo de progressão sem ter tido a chance de interrompê-lo.
Dado clínico
Todo paciente com diabetes mellitus diagnosticado há mais de 5 anos deve fazer rastreio anual de microalbuminúria e TFG — independentemente do controle glicêmico. O dano pode estar acontecendo mesmo com HbA1c adequada.
O rastreio renal para pacientes com hipertensão ou diabetes é uma avaliação direcionada, simples e de alto impacto. Não é uma bateria extensa de exames — é um conjunto específico de marcadores que permite saber, com precisão, o que está acontecendo com a função renal.
Na minha abordagem, o rastreio não é uma lista de pedidos. É uma avaliação integrada: interpreto os exames no contexto do histórico do paciente, das outras doenças, das medicações em uso e da evolução ao longo do tempo. E realizo o ultrassom renal na própria consulta, quando indicado.
Frequência recomendada: pelo menos uma vez ao ano para qualquer paciente com diagnóstico de HAS ou DM. Em casos de maior risco — mau controle pressórico, diabetes tipo 1, doença estabelecida — o monitoramento deve ser mais frequente.
O que o rastreio inclui
Creatinina sérica + TFG estimada
Mede diretamente o quanto os rins estão filtrando. É o marcador central da função renal.
Microalbuminúria / Proteinúria
O primeiro sinal de dano glomerular. Detectável anos antes da queda da TFG — é a janela de intervenção precoce.
Ureia sérica
Produto do metabolismo proteico que se acumula quando a filtração renal cai. Complementa a creatinina.
Eletrólitos e sedimento urinário
Potássio, sódio, fósforo — equilíbrio eletrolítico que revela como o rim está regulando o ambiente interno do organismo.
Ultrassom renal integrado
Realizado durante a própria consulta. Avalia tamanho, estrutura e vascularização dos rins. Pode revelar alterações não captadas pelos laboratoriais.
Idealmente, o rastreio renal deve ser feito assim que o diagnóstico de hipertensão é confirmado — e repetido anualmente. Mas se você tem hipertensão há mais de 5 anos sem nunca ter avaliado a função renal, procure um nefrologista agora. Outros sinais de alerta: dificuldade de controlar a pressão mesmo com medicação, proteinúria detectada em exame de rotina, creatinina acima de 1,2 mg/dL ou qualquer relato de doença renal na família.
Sim, embora o bom controle glicêmico reduza significativamente o risco e a velocidade de progressão da nefropatia diabética, não elimina completamente. Pacientes com diabetes bem controlado ainda podem desenvolver comprometimento renal — especialmente se tiveram períodos de controle inadequado, têm longa duração de doença, ou apresentam outros fatores de risco como hipertensão ou proteinúria preexistente. O rastreio anual é indicado independentemente do controle da HbA1c.
Microalbuminúria é a presença de pequenas quantidades de albumina (proteína) na urina — em valores entre 30 e 300 mg por grama de creatinina urinária. É o primeiro sinal detectável de lesão glomerular na nefropatia diabética e hipertensiva, aparecendo anos antes de qualquer queda da TFG. Sua importância é enorme: quando detectada nessa fase precoce, a nefropatia ainda pode ser revertida ou estabilizada com o tratamento correto — especialmente com o uso de bloqueadores do sistema renina-angiotensina. É a janela de oportunidade da nefrologia preventiva.
Em grande medida, sim — especialmente nos estágios iniciais. O controle rigoroso da glicemia (HbA1c abaixo de 7% ou conforme a meta individualizada), o controle da pressão arterial com anti-hipertensivos nefroprotetores, a eliminação de fatores agravantes (tabagismo, anti-inflamatórios crônicos, contraste iodado sem hidratação), e o rastreio anual da microalbuminúria são estratégias comprovadas para prevenir ou retardar significativamente a progressão da nefropatia diabética.
O clínico geral e o cardiologista tratam a hipertensão com foco cardiovascular — e fazem isso muito bem. O nefrologista tem foco adicional na proteção renal: avalia não apenas se a pressão está controlada, mas se as classes de medicamentos usadas estão protegendo os rins, se há comprometimento renal subclínico, se existe uma causa renal por trás da hipertensão de difícil controle, e monitora a função renal de forma contínua. Os dois acompanhamentos são complementares e, em pacientes com hipertensão de longa data ou difícil controle, a avaliação nefrológica é altamente recomendada.
Hipertensão e diabetes são tratáveis. Quando acompanhadas com foco na proteção renal, raramente precisam chegar à insuficiência renal. Agende agora.